segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Cada escolha uma renúncia. Mas você sabe disso ?


Um dos assuntos que mais tem me interessado é saber, ou tentar aprender, como as pessoas funcionam. Assunto espinhoso, já que, como diz uma amiga muita querida, “pessoas são máquinas ambulantes de criar problemas”. Uma das linhas de estudo deste tema é a escolha individual (Racionalidade). Kahneman, Ariely, dentro outros, tem livros e textos muito bacanas sobre isto.  

E dentre estes temas, um dos mais instigantes é o estudo da capacidade de postergar a gratificação imediata e aceitar que, com uma dose de paciência, o futuro será melhor do que o presente. Esta habilidade é tratada como fundamental para o sucesso na vida, mais até do que a inteligência. Infelizmente não somos programados para pensar assim. Quando falo programação, me refiro aos padrões formados pela aprendizagem humana. Nosso cérebro não pensa estatisticamente, a não ser que o forcemos assim (vale visitar o Rápido e Devagar – duas Formas de Pensar, do Kahneman para entender a batalha que travamos dentro de nós). 

Quando aplicamos isto à educação financeira fica bem fácil perceber o dilema. Sempre é uma escolha intertemporal entre prazer hoje e possivelmente mais prazer no futuro. Mas acreditar nisto, ou fazer nosso cérebro crer que o futuro será provavelmente melhor se formos prudentes no presente é onde mora o diabo. Porque o tinhoso está sempre nos detalhes. Gastar menos hoje, e ter mais poupança no futuro, consumir menos calorias hoje e ter menos doenças no futuro, mais horas de sono hoje e menos olheiras no futuro, e por aí vai. Sempre são escolhas intertemporais. Como não conhecemos o futuro, atribuímos probabilidades aos resultados. Criamos um plano, definimos regras, invocamos nossa força de vontade, mas quando acontece algo que nos tira do eixo, nosso raciocínio falha, e, conforme Kahneman explicou de forma brilhante, qualquer desvio emocional ou cognitivo faz com que o nosso sistema intuitivo assuma o controle.  

Tá, este meu blá-blá-blá ficou muito abstrato. Deixe-me construir um exemplo homem-mulher mas que pode ser invertido pelo gênero sem perder aplicabilidade. O exemplo é meramente ilustrativo, mas pela minha  experiência como professor, se quem recebe a mensagem não se reconhecer minimamente nos exemplos, o efeito da mensagem é de curtíssimo prazo. 

Um homem chamado Arnaldo trabalha com duas mulheres, Bety e Suzy que são grandes amigas. Bety é elegante, educada, feliz e de bem com a vida. Bonita, parcialmente gostosa (a gostosura está nos olhos de quem vê. ok ?). Arnaldo sempre teve uma queda por Bety, e agora que ela está solteira após um longo relacionamento, ele percebe que suas chances de namorar a mulher que ele acha sensacional são elevadas. Arnaldo quer ficar com Bety, e se tudo der certo, engatar um namoro que vai virar casamento. 

Suzy é um mulherão. Daquelas que é impossível não notar, sempre sorridente, alegre, um pouco geniosa, com uma sexualidade incrível. Daquelas que naturalmente fazem seus hormônios dispararem. Não há característica que desabone a conduta de Suzy. Porém Suzy não parece gostar de relacionamentos com caras como Arnaldo. Mas não quer dizer que não possa sair algumas vezes como ele.Afinal todos são solteiros e adultos. Arnaldo sabe disso. Todo mundo sabe disso. Até aqui, uma estória normal que acontece em bairros, famílias e empresas, isto é, em qualquer grupo.

Porém, Suzy resolveu “dar mole” para Arnaldo. Ele não sabe exatamente o porquê. Nem ela sabe. Mas de umas semanas para cá está determinada a passar pelo menos uma noite com Arnaldo. E já deixou isto claro para ele. Sempre lembrando o efeito que Suzy causa nos homens. Arnaldo está a fim de Bety, mas como ela acabou de se separar, não quer relacionamentos, nas palavras dela: nem com ele e nem com ninguém. Arnaldo sabe que se ficar com Suzy, suas chances com Bety caem para zero. Mas ele não sabe se Bety vai querer ficar com ele, voltar para o ex, ou ficar com outro. Ele simplesmente não sabe o que vai acontecer no futuro.  

Assim Arnaldo está em um dilema temporal. Uma escolha entre presente e futuro. Para manter a probabilidade de algo que deseja (ficar com Bety), ele deve postergar a gratificação imediata (sair com Suzy). Mas como ele não conhece o futuro, a escolha implica em abrir mão hoje de algo com certeza, para, POSSIVELMENTE, ter o que se quer no futuro. O que complica é o “possivelmente”. Nosso cérebro não gosta de pensar probabilisticamente. Pensamos intuitivamente. E aí que fica difícil abrir mão do prazer no presente, para, se tudo correr bem, poder obter mais satisfação no futuro.

O problema do Arnaldo é o de qualquer pessoa que precise desenvolver suas habilidades de educação financeira. Uma escolha entre presente e um possível futuro. O argumento de que somos uma sociedade imediatista, explica só uma parte do processo, porém ignora o fato de que teremos que abrir mão de prazer no presente para, possivelmente, obtê-lo no futuro. E não gostamos e não estamos preparados para pensar assim. 

Talvez sejamos mais bem sucedidos se reforçarmos a capacidade das pessoas para pensarem estatisticamente sem entrar em desespero, ou na linha da pesquisa de Muller e Dwek (1998), ou até do famoso estudo de Walter Mischell (aquele do marshmallow), tentarmos reforçar a capacidade de resistir a gratificação imediata, sobretudo nas crianças. Não consigo vê-las captando a mensagem de que devem poupar para o futuro, afinal crianças são questionadoras, mas sim de que se pouparem poderão ao invés de ter um doce, ter dois ou três – uma associação direta entre esforço e recompensa. Pessoal das humanas não me malhem o pau. Economistas acreditam em incentivo diretos. Educadores não (Pelo menos os que eu conheço e me relaciono).

Não sei ao certo a resposta. Eu realmente estou escrevendo para tentar organizar as ideias sobre o tema, que me é muito caro. Todavia, a ideia deste pensamento alto é incentivar as perguntas. Se um dia conseguirmos perguntar do jeito certo, quem sabe nos aproximemos das respostas certas e eficazes.



1 abraço de quebrar costelas  

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